Fissuras por assentamento: quem é responsável? Direitos, obrigações e soluções

Vês uma fissura junto à janela e pensas que será apenas um problema de pintura. Algumas semanas depois, volta a abrir-se, uma porta começa a prender e um vizinho comenta que está a acontecer algo semelhante na sua sala. Surgem então as dúvidas: será que o edifício está a movimentar-se? Devo contactar a seguradora? Quem paga os danos: o condomínio ou sou eu?

Provavelmente, procuras uma resposta clara antes de te envolveres em relatórios técnicos, obras e discussões. Em Espanha, é importante distinguir duas questões: quem deve tomar medidas para conservar o imóvel e quem é responsável pelos danos. Podem ser pessoas diferentes. Para esclarecer a situação, o primeiro passo é perceber o que está a acontecer por baixo da habitação.

Antes de procurar o responsável, é necessário confirmar a causa

Um assentamento corresponde a uma descida do terreno sobre o qual assenta a fundação. Quando determinadas zonas descem mais do que outras, ocorre um assentamento diferencial, que pode provocar deformações e fissuras. O comportamento do conjunto terreno-fundação deve ser avaliado tanto do ponto de vista da sua estabilidade como dos movimentos que possam afetar a utilização do edifício.

No entanto, uma fotografia não é suficiente para estabelecer um diagnóstico. É aconselhável solicitar uma inspeção a um técnico qualificado, como os que integram a equipa da GeoNovatek, que determinará quais os ensaios e verificações necessários.

Por exemplo, se aparecer uma abertura por cima de uma porta, não deves assumir imediatamente que a casa está a afundar. Regista quando detetaste a fissura, fotografa a sua evolução e solicita uma avaliação técnica. Determinar a causa antes de realizar uma inspeção pode levar-te a reclamar junto de quem não é responsável ou a contratar uma reparação desnecessária.

Quando é responsável a empresa de construção ou o promotor imobiliário

Se os danos resultarem de um defeito de construção, podem ser responsabilizados a empresa de construção, os técnicos ou outros intervenientes, consoante a sua participação no processo. O promotor imobiliário responde solidariamente perante os adquirentes pelos danos de construção previstos na Lei de Ordenação da Edificação espanhola (Ley de Ordenación de la Edificación – LOE). Não basta atribuir o problema ao terreno: é necessário investigar o defeito e a sua relação com os danos.

Imagina um empreendimento habitacional recente em que várias habitações apresentam fissuras. Antes de aceitares simplesmente uma demão de tinta, solicita um diagnóstico escrito que explique a causa e a reparação proposta. Guarda também as mensagens em que te dizem que «isso é normal». Uma explicação verbal não permite verificar o que foi efetivamente analisado.

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Quando deve intervir o condomínio

Num edifício em propriedade horizontal, as fundações e a estrutura são elementos comuns. O facto de a fissura ser visível no interior do teu quarto não significa automaticamente que a sua origem seja um problema privado.

Se for necessário reparar um elemento comum para conservar o edifício e garantir a sua segurança, o condomínio deve organizar a intervenção. Estas obras de conservação necessárias são obrigatórias; a assembleia de condóminos define a quota extraordinária e a respetiva forma de pagamento. Como regra geral, os proprietários contribuem de acordo com a sua permilagem ou com o sistema validamente estabelecido. Posteriormente, poderá ser apresentada uma reclamação contra o responsável, quando aplicável.

Imaginemos que as fissuras aparecem apenas em dois apartamentos do rés do chão, mas o relatório técnico identifica um problema nas fundações comuns. A decisão não pode resumir-se a «que paguem esses dois vizinhos». É necessário considerar o elemento afetado e a causa do problema.

Quando pode ser o proprietário a assumir a responsabilidade

Numa moradia unifamiliar independente, o proprietário deve promover o diagnóstico e as medidas de conservação, embora possa posteriormente reclamar contra outro responsável. Além disso, os proprietários têm obrigações relacionadas com a utilização e a manutenção dos imóveis.

Também pode existir responsabilidade por uma atuação negligente do próprio proprietário. Por exemplo, se ficar demonstrado que uma fuga numa instalação privada, que não foi devidamente reparada, provocou danos noutra propriedade, o proprietário poderá ter de responder por esses danos. A responsabilidade exige demonstrar a conduta, o dano e a relação entre ambos. Ser proprietário não significa ser automaticamente responsável por qualquer fissura.

Por isso, é importante guardar faturas de manutenção, avisos de avarias e registos de reparações. Se já comunicaste uma ocorrência há vários meses, esses documentos ajudam a reconstituir o que aconteceu.

Se o problema tiver origem numa obra vizinha

Uma escavação nas proximidades pode afetar o terreno e as construções adjacentes. No entanto, o facto de as fissuras aparecerem durante uma obra não demonstra, por si só, que essa intervenção seja responsável pelos danos.

Por exemplo, começam a escavar para construir uma garagem junto à tua casa e detetas novas fissuras. Regista as datas e solicita uma inspeção. Se ficar demonstrado que uma atuação negligente provocou os danos, poderá ser apresentada uma reclamação contra os responsáveis.

Neste contexto, são particularmente úteis as fotografias anteriores ao início da obra e quaisquer inspeções prévias realizadas ao imóvel.

Os prazos para reclamar não são todos iguais

Quando a LOE espanhola for aplicável, é importante distinguir os danos que surgem dentro dos seguintes prazos:

  • Um ano: defeitos de execução nos acabamentos.
  • Três anos: defeitos que comprometem os requisitos de habitabilidade.
  • Dez anos: defeitos estruturais que comprometem diretamente a resistência e a estabilidade do edifício.

Estes prazos contam-se a partir da receção da obra sem reservas ou da correção das mesmas, e não necessariamente a partir da data de compra. O prazo de prescrição da ação prevista na LOE é de dois anos a contar da ocorrência dos danos. Uma fissura provocada por assentamento não se enquadra automaticamente no prazo de dez anos.

A consequência prática é simples: se aparecerem fissuras no quarto ano, não deves assumir que podes esperar até ao décimo. Apresenta as datas e a documentação a um advogado para que determine o regime aplicável, os destinatários da reclamação e a forma de preservar os teus direitos. Em edifícios antigos ou em situações de compra e venda, será necessário analisar as vias legais aplicáveis a cada caso.

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O seguro pode intervir, mas é necessário verificar a apólice

Ter um seguro de habitação ou do condomínio não garante que qualquer problema de assentamento esteja coberto. A resposta depende dos riscos contratados, das condições da apólice e da causa dos danos. Convém também verificar se existe uma apólice de seguro decenal e quais as situações que cobre.

Por exemplo, perante uma fuga de água acompanhada de fissuras, solicita à seguradora que distinga entre a reparação da tubagem, a reparação dos danos resultantes da fuga e a intervenção nas fundações. São trabalhos diferentes.

Comunica o sinistro o mais rapidamente possível. A Lei do Contrato de Seguro espanhola estabelece, salvo se a apólice previr um prazo superior, sete dias a contar do momento em que o sinistro é conhecido. Se a seguradora recusar a cobertura, solicita por escrito a justificação e a cláusula específica em que fundamenta a decisão.

O que fazer passo a passo quando aparecem fissuras

  1. Documenta o que observas: Tira fotografias gerais e de pormenor, utilizando uma régua como referência. Regista as datas e as alterações. Uma pasta organizada é muito mais útil do que vinte fotografias dispersas no WhatsApp.
  2. Comunica a situação por escrito: Informa o presidente da administração do condomínio ou o administrador, caso possam estar afetados elementos comuns, e contacta a seguradora correspondente. Guarda os comprovativos das comunicações.
  3. Solicita uma avaliação técnica: Pede um relatório que explique a causa provável, as verificações ainda necessárias, o grau de urgência e as possíveis soluções. «Existem fissuras» não é um diagnóstico suficiente.
  4. Reúne a documentação: Projeto, estudo geotécnico, caso esteja disponível, livro do edifício, apólices de seguro, atas, faturas e comunicações. Não precisas de ter tudo reunido para solicitar uma primeira inspeção.
  5. Formaliza a reclamação: Com aconselhamento jurídico, identifica os responsáveis e utiliza um meio que permita comprovar o conteúdo e a receção da comunicação. Uma chamada telefónica permite conversar, mas deixa poucas provas.
  6. Documenta a reparação: Guarda orçamentos, relatórios e faturas. Antes de ocultar ou reparar os danos, permite que sejam inspecionados, sempre que as condições de segurança o permitam.

Resumo dos passos a seguir

  1. Documentar

Fotografar as fissuras com uma régua como referência e registar datas e alterações.

  1. Comunicar

Informar por escrito o condomínio e/ou a seguradora. Guardar os comprovativos.

  1. Avaliar

Solicitar um relatório técnico sobre a causa, a urgência e as soluções possíveis.

  1. Reunir provas

Recolher projetos, apólices, atas, relatórios e comunicações.

  1. Reclamar

Identificar os responsáveis e formalizar a reclamação através de um meio que permita comprovar a sua receção, com aconselhamento jurídico.

  1. Reparar

Guardar orçamentos e faturas e permitir uma inspeção prévia, sempre que seja seguro fazê-lo.

Como resolver o assentamento e reparar as fissuras

A intervenção deve ser adequada ao diagnóstico. Poderá ser necessário corrigir problemas relacionados com a água, melhorar as características do terreno ou reforçar as fundações através de um recalçamento. Antes de escolher um tratamento para o solo, o Código Técnico da Edificação espanhol exige o conhecimento das suas condições geotécnicas e a verificação dos resultados da melhoria realizada.

Por exemplo, se for detetada uma fuga de água junto às fundações, é necessário avaliar tanto a sua reparação como o estado do terreno de apoio. Injetar um material ou fechar a fissura sem resolver a causa pode deixar o problema por solucionar.

Solicita um orçamento que explique o que será feito, porquê, como serão verificados os resultados e que acompanhamento será realizado. A solução adequada depende dessa análise: não existe um tratamento universal válido para todos os tipos de terreno.

Quando te questionares sobre as fissuras por assentamento e quem é responsável pelos danos, começa por obter um diagnóstico técnico e deixar um registo da ocorrência. Com essa base, poderás exigir uma reparação devidamente fundamentada, discutir responsabilidades com provas e evitar que tudo termine com mais uma simples demão de tinta.

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Andres Lopez

Diretor técnico na Geonovatek

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